segunda-feira, 20 de abril de 2015

TODA A HISTÓRIA (INVENTADA) DE CAETANÃO

De dentro do caixão, ouvia apenas os sons, que se confundiam do lado de fora. O calor era infernal, mas, Giuliano nem pensava em sair. O certo era ficar ali até que o navio zarpasse; depois, no Brasil, tudo seria mais fácil. Já estava planejado: desceria no porto de Santos; iria para alguma cidadezinha, mudaria de nome e se tornaria em mais um trabalhador nos grandes cafezais de São Paulo, ou no sul de Minas.

O navio parecia se distanciar do cais. O medo tomava conta daquele homem. Para trás deixava os pais, irmãos, a esposa e um casal de filhos. Segurava firmemente a imagem de São Judas, que trazia sempre consigo, pendurada ao pescoço por uma correntinha de ouro. Cria nos milagres do santo e que sairia vivo da Itália; mas já não cria que veria os seus novamente. E, baixinho, Giuliano chorava escondido no caixão.

Certamente que muitos dos seus camaradas já haviam sido mortos pelosCamisas Negras; muitos se sacrificaram para que ele sobrevivesse, talvez na esperança de que um dia voltasse para salvá-los; mas, ele sabia, nunca mais haveria de voltar. Para trás ficavam as lutas sindicais, a esperança de liberdade e o sonho de que o Fascismo pudesse se acabar, junto do Mussolini. Tudo sonhos de um povo triste.

E enquanto o navio se arrastava pela imensidão do mar, o pobre homem, agora despido de todo o medo da saída, assentado junto à amurada, olhava os céus que já iam se escurecendo e pensava na sua nova terra, nos que ficaram para trás e no que viria pela frente. E um nome lhe veio à mente: Caetano, que significa poço ou caverna subterrânea. Este deveria ser o seu nome brasileiro: Caetano. Afinal, era ele um enorme poço, cheio de tristezas e desesperança.


No meio da noite, misturara-se aos homens que trabalhavam na caldeira e, entre um trago e outro, embebedara-se e virara amigos de todos, que nem notaram ser ele um estranho. E, durante vinte dias, Caetano viajara entre aqueles homens maltrapilhos, que cantavam e sorriam todo o tempo, entre o calor da caldeira e as bebidas, escondendo todas as tristezas que tomavam a sua alma. E os planos iam se fazendo, e refazendo, na cabeça do rebelde fugitivo, enquanto Giuliano ia, aos poucos, transformando-se, definitivamente, em Caetano.


Durante algum tempo, Caetano permaneceu na cidade de Santos, onde trabalhara como estivador, no cais do porto; no entanto, não possuía documentos e isso o poderia complicar. Tinha que seguir seus planos e ir trabalhar nas plantações de café. Resolvera descer até Ribeirão Preto, e, de lá para Minas seria um pulo.

Em terras de um grande produtor de café, o homem se embrenhara no mundo do ouro negro. Chegou timidamente, trazido por um colega dos bares de Santos, que se dizia amigo do fazendeiro. Misturara-se aos outros trabalhadores e, logo, se tornara líderes daqueles homens. Em sua maioria, aqueles eram homens e mulheres fugidos dos países europeus, todos em guerra; e muitos, assim como ele, eram italianos, sem nome, sem família, sem uma vida de verdade.

O dono da fazenda, um tal de Lucas Andrade, logo se afeiçoara ao italiano, pois havia visto naquele rapaz alto, forte e muito branco, uma exímia liderança e, assim, melhor tê-lo ao seu lado do que contra si. Rapidamente, Caetano ficara intimo da família, e transitava bem entre as ordens do patrão e as necessidades dos empregados.

As lembranças da Itália ainda tocavam o coração do italiano. Às vezes tinha vontade de voltar para sua terra, enfrentar o Fascismo e libertar o seu povo; mas sabia que não era tempo. Não haveria de suicidar-se; ficasse em terras brasileiras e tudo estaria bem, menos a sua alma. Não obstante, uma mocinha de olhos esverdeados também fazia tremer o coração de Caetano, e ela se chamava Lúcia, a filha do patrão.

Lúcia era meiga e inteligente. Ela dava aulas na escolinha da fazenda, pois havia feito o magistério e sentia no peito uma imensa vontade de ensinar. Caetano não estudava, mas, ficara encarregado de levar e trazê-la das aulas em segurança, sob as ordens do patrão. E, enquanto iam e voltavam os dois pelo caminho, conversando coisas vãs, ele esquecia-se da Itália e enamorava os negros cabelos lisos da professorinha, seus lábios finos e desenhados, seu corpinho frágil e seus seios pequenos e duros.


Um dia, foram ambos à escola e não voltaram. Lucas usou todos os seus poderes de coronel, ainda assim, não conseguira capturar o ladrão da sua filha. Ambos estavam apaixonados e, sabedores da negativa do coronel, que nunca haveria de aceitar o casamento da sua menina com um empregado, fugiram, de trem, para as Minas Gerais, onde haveriam de construir uma família.


Já em terras mineiras, Caetano e Lúcia foram trabalhar em uma fazenda de café no sul do estado, ele na colheita e ela como professora dos filhos dos empregados. Durante um tempo tudo correria bem, até que, numa noite, quando já estavam na cama, a esposa reclamou de que o dono da fazenda a perseguia, procurando o seu corpo.

De manhã, Caetano saíra para o trabalho, mas, ao invés de seguir o seu caminho, escondeu-se atrás de uma moita e ficou a espreitar o seu patrão. Este saiu apressado, seguindo para a escolinha. Lúcia não imaginava o que aconteceria, mas, já esperava pelas investidas do homem, um velho barrigudo e com grosso bigode, cheio de arrotos e arrogâncias. Ela não cederia aos seus ataques, mas, também não queria que o marido se encrencasse por sua causa e cria que já deveriam partir.

O homem descera rápido do cavalo e, sem dizer qualquer palavra, jogou-se sobre a professora. Ela tentava, em vão, se desgarrar das calejadas mãos daquele monstro. De repente, um único bate e ele caíra sobre o seu corpo, sua blusa estava rasgada e os seios saltavam para fora, o coração aos pulos e a pele trêmula. Caetano chegara a tempo de salvar a sua amada. Havia matado o seu patrão e tudo estava consumado.

Antes de partirem, pegaram todo o dinheiro da casa. O homem não possuía família, assim, todo o resto do que possuía ficaria para os empregados, conforme afirmara Caetano ao reuni-los na varanda da grande fazenda. Desta forma, cada um teria o seu pedacinho de terra, onde haveriam de produzir os seus ganhames.


O casal partira novamente, agora para o norte de Minas. De novo, viam-se a bordo de um trem de ferro, com a fumaça voando pelos céus. Caetanão lembrando-se da Itália, da esposa e dos filhos que deixara para trás, dos amigos e da luta da qual tivera que fugir, mas que nunca saíra de dentro de si. Lúcia, no seu cantinho, assustada, não queria perturbar o marido, mas, sentia enjoos e tonturas. Talvez estivesse esperando o seu primeiro rebento.

Sentado na varanda da sua casa, Caetanão esperava ansioso pelo nascimento de mais um filho. Lúcia quase não sabia da sua vida na Itália; apenas que era fugitivo de Mussolini e que nunca mais haveria de voltar à sua pátria. Não lhe falara da esposa e dos filhos que ficaram para trás. Agora, teria uma nova família, para concretizar a sua vida no Brasil.

Dentro do quarto escuro, com as janelas fechadas, a parteira tentava tirar o menino de dentro da mãe. Uma tarefa árdua, pois o bebê estava atravessado e não havia passagem para nascer. Lúcia suava e tinha febre, mas, segurava-se para não gritar, pois não queria preocupar o marido. Queria dar-lhe um filho e cumpriria a sua missão.

Ainda na varanda, o homem apegava-se à imagem de São Judas, ainda pendurada ao seu pescoço, a mesma que o livrara na fuga da Europa. Ela haveria de salvar também a sua esposa. Queria muito o filho, mas, amava a sua mulher; que se salvasse a esposa e morresse o bebê. Tirara a correntinha do pescoço e fizera uma oração, entregou-a à parteira e disse: “Ponha-a no pescoço de Lúcia, e tudo se resolverá. E eu construirei uma igreja ao santo”.

A igrejinha ainda está de pé, com as missas acontecendo, esporadicamente, em seu interior. O santo tornou-se num dos padroeiros da cidade e, dizem alguns, que os corpos de Caetanão e Lúcia foram enterrados debaixo do altar. Ambos não tiveram filhos e o Giuliano nunca mais voltara à Itália. Durante muito tempo, lidou com gado e foi comerciante na pequenina cidade, enquanto a esposa era professora na escolinha que fundaram nos fundos da grande casa que construíram.


Caetanão não era homem de muitas posses, mas, vivera tranquilo durante muito tempo, embora se pudesse notar, no fundo dos seus olhos, uma eterna tristeza, que nunca parava de jorrar. Talvez fosse a saudade da Itália e das lutas que por lá travara, sempre em busca da justiça e da liberdade, que encontrara à beira das lagoas de São João.

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