De dentro do caixão, ouvia apenas os
sons, que se confundiam do lado de fora. O calor era infernal, mas, Giuliano
nem pensava em sair. O certo era ficar ali até que o navio zarpasse; depois, no
Brasil, tudo seria mais fácil. Já estava planejado: desceria no porto de
Santos; iria para alguma cidadezinha, mudaria de nome e se tornaria em mais um
trabalhador nos grandes cafezais de São Paulo, ou no sul de Minas.
O navio parecia se distanciar do cais.
O medo tomava conta daquele homem. Para trás deixava os pais, irmãos, a esposa
e um casal de filhos. Segurava firmemente a imagem de São Judas, que trazia
sempre consigo, pendurada ao pescoço por uma correntinha de ouro. Cria nos
milagres do santo e que sairia vivo da Itália; mas já não cria que veria os
seus novamente. E, baixinho, Giuliano chorava escondido no caixão.
Certamente que muitos dos seus
camaradas já haviam sido mortos pelosCamisas Negras; muitos se sacrificaram
para que ele sobrevivesse, talvez na esperança de que um dia voltasse para
salvá-los; mas, ele sabia, nunca mais haveria de voltar. Para trás ficavam as
lutas sindicais, a esperança de liberdade e o sonho de que o Fascismo pudesse
se acabar, junto do Mussolini. Tudo sonhos de um povo triste.
E enquanto o navio se arrastava pela
imensidão do mar, o pobre homem, agora despido de todo o medo da saída,
assentado junto à amurada, olhava os céus que já iam se escurecendo e pensava
na sua nova terra, nos que ficaram para trás e no que viria pela frente. E um
nome lhe veio à mente: Caetano, que significa poço ou caverna subterrânea. Este
deveria ser o seu nome brasileiro: Caetano. Afinal, era ele um enorme poço,
cheio de tristezas e desesperança.
No meio da noite, misturara-se aos
homens que trabalhavam na caldeira e, entre um trago e outro, embebedara-se e
virara amigos de todos, que nem notaram ser ele um estranho. E, durante vinte
dias, Caetano viajara entre aqueles homens maltrapilhos, que cantavam e sorriam
todo o tempo, entre o calor da caldeira e as bebidas, escondendo todas as
tristezas que tomavam a sua alma. E os planos iam se fazendo, e refazendo, na
cabeça do rebelde fugitivo, enquanto Giuliano ia, aos poucos, transformando-se,
definitivamente, em Caetano.
Durante algum tempo, Caetano permaneceu
na cidade de Santos, onde trabalhara como estivador, no cais do porto; no
entanto, não possuía documentos e isso o poderia complicar. Tinha que seguir
seus planos e ir trabalhar nas plantações de café. Resolvera descer até
Ribeirão Preto, e, de lá para Minas seria um pulo.
Em terras de um grande produtor de
café, o homem se embrenhara no mundo do ouro negro. Chegou timidamente, trazido
por um colega dos bares de Santos, que se dizia amigo do fazendeiro.
Misturara-se aos outros trabalhadores e, logo, se tornara líderes daqueles
homens. Em sua maioria, aqueles eram homens e mulheres fugidos dos países
europeus, todos em guerra; e muitos, assim como ele, eram italianos, sem nome,
sem família, sem uma vida de verdade.
O dono da fazenda, um tal de Lucas
Andrade, logo se afeiçoara ao italiano, pois havia visto naquele rapaz alto,
forte e muito branco, uma exímia liderança e, assim, melhor tê-lo ao seu lado
do que contra si. Rapidamente, Caetano ficara intimo da família, e transitava
bem entre as ordens do patrão e as necessidades dos empregados.
As lembranças da Itália ainda tocavam o
coração do italiano. Às vezes tinha vontade de voltar para sua terra, enfrentar
o Fascismo e libertar o seu povo; mas sabia que não era tempo. Não haveria de
suicidar-se; ficasse em terras brasileiras e tudo estaria bem, menos a sua
alma. Não obstante, uma mocinha de olhos esverdeados também fazia tremer o coração
de Caetano, e ela se chamava Lúcia, a filha do patrão.
Lúcia era meiga e inteligente. Ela dava
aulas na escolinha da fazenda, pois havia feito o magistério e sentia no peito
uma imensa vontade de ensinar. Caetano não estudava, mas, ficara encarregado de
levar e trazê-la das aulas em segurança, sob as ordens do patrão. E, enquanto
iam e voltavam os dois pelo caminho, conversando coisas vãs, ele esquecia-se da
Itália e enamorava os negros cabelos lisos da professorinha, seus lábios finos
e desenhados, seu corpinho frágil e seus seios pequenos e duros.
Um dia, foram ambos à escola e não
voltaram. Lucas usou todos os seus poderes de coronel, ainda assim, não
conseguira capturar o ladrão da sua filha. Ambos estavam apaixonados e,
sabedores da negativa do coronel, que nunca haveria de aceitar o casamento da
sua menina com um empregado, fugiram, de trem, para as Minas Gerais, onde
haveriam de construir uma família.
Já em terras mineiras, Caetano e Lúcia
foram trabalhar em uma fazenda de café no sul do estado, ele na colheita e ela
como professora dos filhos dos empregados. Durante um tempo tudo correria bem,
até que, numa noite, quando já estavam na cama, a esposa reclamou de que o dono
da fazenda a perseguia, procurando o seu corpo.
De manhã, Caetano saíra para o
trabalho, mas, ao invés de seguir o seu caminho, escondeu-se atrás de uma moita
e ficou a espreitar o seu patrão. Este saiu apressado, seguindo para a
escolinha. Lúcia não imaginava o que aconteceria, mas, já esperava pelas
investidas do homem, um velho barrigudo e com grosso bigode, cheio de arrotos e
arrogâncias. Ela não cederia aos seus ataques, mas, também não queria que o
marido se encrencasse por sua causa e cria que já deveriam partir.
O homem descera rápido do cavalo e, sem
dizer qualquer palavra, jogou-se sobre a professora. Ela tentava, em vão, se
desgarrar das calejadas mãos daquele monstro. De repente, um único bate e ele
caíra sobre o seu corpo, sua blusa estava rasgada e os seios saltavam para
fora, o coração aos pulos e a pele trêmula. Caetano chegara a tempo de salvar a
sua amada. Havia matado o seu patrão e tudo estava consumado.
Antes de partirem, pegaram todo o
dinheiro da casa. O homem não possuía família, assim, todo o resto do que
possuía ficaria para os empregados, conforme afirmara Caetano ao reuni-los na
varanda da grande fazenda. Desta forma, cada um teria o seu pedacinho de terra,
onde haveriam de produzir os seus ganhames.
O casal partira novamente, agora para o
norte de Minas. De novo, viam-se a bordo de um trem de ferro, com a fumaça
voando pelos céus. Caetanão lembrando-se da Itália, da esposa e dos filhos que
deixara para trás, dos amigos e da luta da qual tivera que fugir, mas que nunca
saíra de dentro de si. Lúcia, no seu cantinho, assustada, não queria perturbar
o marido, mas, sentia enjoos e tonturas. Talvez estivesse esperando o seu
primeiro rebento.
Sentado na varanda da sua casa,
Caetanão esperava ansioso pelo nascimento de mais um filho. Lúcia quase não
sabia da sua vida na Itália; apenas que era fugitivo de Mussolini e que nunca
mais haveria de voltar à sua pátria. Não lhe falara da esposa e dos filhos que
ficaram para trás. Agora, teria uma nova família, para concretizar a sua vida
no Brasil.
Dentro do quarto escuro, com as janelas
fechadas, a parteira tentava tirar o menino de dentro da mãe. Uma tarefa árdua,
pois o bebê estava atravessado e não havia passagem para nascer. Lúcia suava e
tinha febre, mas, segurava-se para não gritar, pois não queria preocupar o
marido. Queria dar-lhe um filho e cumpriria a sua missão.
Ainda na varanda, o homem apegava-se à
imagem de São Judas, ainda pendurada ao seu pescoço, a mesma que o livrara na
fuga da Europa. Ela haveria de salvar também a sua esposa. Queria muito o
filho, mas, amava a sua mulher; que se salvasse a esposa e morresse o bebê.
Tirara a correntinha do pescoço e fizera uma oração, entregou-a à parteira e
disse: “Ponha-a no pescoço de Lúcia, e tudo se resolverá. E eu construirei uma
igreja ao santo”.
A igrejinha ainda está de pé, com as
missas acontecendo, esporadicamente, em seu interior. O santo tornou-se num dos
padroeiros da cidade e, dizem alguns, que os corpos de Caetanão e Lúcia foram
enterrados debaixo do altar. Ambos não tiveram filhos e o Giuliano nunca mais
voltara à Itália. Durante muito tempo, lidou com gado e foi comerciante na pequenina
cidade, enquanto a esposa era professora na escolinha que fundaram nos fundos
da grande casa que construíram.
Caetanão não era homem de muitas
posses, mas, vivera tranquilo durante muito tempo, embora se pudesse notar, no
fundo dos seus olhos, uma eterna tristeza, que nunca parava de jorrar. Talvez
fosse a saudade da Itália e das lutas que por lá travara, sempre em busca da
justiça e da liberdade, que encontrara à beira das lagoas de São João.
Nenhum comentário:
Postar um comentário