Sentado
na varanda da sua casa, Caetanão esperava ansioso pelo nascimento de mais um
filho. Lúcia quase não sabia da sua vida na Itália; apenas que era fugitivo de
Mussolini e que nunca mais haveria de voltar à sua pátria. Não lhe falara da
esposa e dos filhos que ficaram para trás. Agora, teria uma nova família, para
concretizar a sua vida no Brasil.
Dentro
do quarto escuro, com as janelas fechadas, a parteira tentava tirar o menino de
dentro da mãe. Uma tarefa árdua, pois o bebê estava atravessado e não havia
passagem para nascer. Lúcia suava e tinha febre, mas, segurava-se para não
gritar, pois não queria preocupar o marido. Queria dar-lhe um filho e cumpriria
a sua missão.
Ainda
na varanda, o homem apegava-se à imagem de São Judas, ainda pendurada ao seu
pescoço, a mesma que o livrara na fuga da Europa. Ela haveria de salvar também
a sua esposa. Queria muito o filho, mas, amava a sua mulher; que se salvasse a
esposa e morresse o bebê. Tirara a correntinha do pescoço e fizera uma oração,
entregou-a à parteira e disse: “Ponha-a no pescoço de Lúcia, e tudo se
resolverá. E eu construirei uma igreja ao santo”.
A
igrejinha ainda está de pé, com as missas acontecendo, esporadicamente, em seu
interior. O santo tornou-se num dos padroeiros da cidade e, dizem alguns, que
os corpos de Caetanão e Lúcia foram enterrados debaixo do altar. Ambos não
tiveram filhos e o Giuliano nunca mais voltara à Itália. Durante muito tempo,
lidou com gado e foi comerciante na pequenina cidade, enquanto a esposa era
professora na escolinha que fundaram nos fundos da grande casa que construíram.
Caetanão não era
homem de muitas posses, mas, vivera tranquilo durante muito tempo, embora se pudesse
notar, no fundo dos seus olhos, uma eterna tristeza, que nunca parava de
jorrar. Talvez fosse a saudade da Itália e das lutas que por lá travara, sempre
em busca da justiça e da liberdade, que encontrara à beira das lagoas de São
João.
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