quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A VELHINHA

Sentado debaixo do Biribazeiro, ponho-me a observar a rua com toda a sua solidão. Por muito tempo, nenhuma vivalma sobe ou desce; apenas os pássaros cortam o silêncio intoxicante dessa manhã. No céu, algumas nuvens escondem o sol, não evitando que o calor abafante evapore as gotículas que haviam serenado de madrugada. Lentamente, uma lagarta vem sulcando a terra, talvez em busca de comida, quiçá, em busca de vida. 

Volto meu olhar à rua, e eis que uma velhinha surge no final. Perdida num longo vestido florido, quase arrasta o seu minúsculo corpo. Os cabelos brancos e o rosto enrugado trazem consigo vários dias de labuta e algumas noites de preocupação.  Já quase chegando aos meus pés, a lagarta entretêm-se com uma folha que acabara de cair do Biribazeiro. A velhinha ainda está no final da rua, e sobe lentamente, como se fizesse o trajeto com sofrimento; no entanto, um intrigante sorriso não saía da sua boca.

Tentei imaginar todos os padecimentos pelos quais passara aquela mulher: talvez tivera um marido alcoólatra, que a batesse todas noites e ela o amasse profundamente; talvez seus filhos a tivessem abandonado ao deus-dará, sem qualquer condição de se viver dignamente; ou, quem sabe até, os netos, moças e rapazes desprovidos de sentimento, roubassem todo o seu dinheiro para as noites de libertinagem ... A única coisa sabida é que ela sobe a rua todos os dias, nesse mesmo horário, até que desapareça do outro lado.

A lagarta já não brinca mais com a folha do Biribazeiro. Enquanto eu olhava e pensava na velhinha e sua vida suposta, seguira o seu caminho, em busca de algum futuro. Também a velhinha sumira. talvez ela tenha desaparecido de repente, como que num passe de mágica, ou, talvez, cansada de tamanho sofrimento, resolvera voar como os pássaros, que se foram para o norte. Levanto-me e vou até o portão. Não adianta, a velha já não existe mais.    

Um comentário:

  1. Parabéns meu caro confrade, uma pena que temos poucos como você por este nosso mundo cultural. Obrigado por dar-me este momento de prazer.

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