terça-feira, 28 de julho de 2015

NOSSAS FÉRIAS

Quando pequeno, íamos á roça. E esse acontecimento, para nós crianças, era uma festa. geralmente, íamos no período de férias e ficávamos todo o final de semana. Queríamos permanecer ali por mais tempo, mas meu pai tinha serviços por terminar e, o pior, não podíamos perder o carro do leite, senão, apenas na outra terça-feira. Uma eternidade para o velho.

Como ainda não tivéssemos o Abacatinho, um velho Corcelzinho verde, que por muito tempo fora o xodó da nossa casa, tínhamos que madrugar para pegar o carro, na casa de Pita, o dono do caminhão do leite. Isso era sempre na sexta-feira. Às vezes íamos na quinta à noite, no caminhão do Pituxo, um típico pau-de-arara que fazia a rota todas as terças e quintas, carregando gente, bichos, feira e tudo o mais que se pudesse carregar. Mas meu pai tinha que trabalhar e era melhor que fôssemos mesmo na sexta.

Pita não cobrava pelo frete, íamos de carona, na carroceria do velho Mercedes, junto às latas de leite, assentados no assoalho, vendo o asfalto que corria por entre as tábuas quebradas. A mãe ia com um lenço na cabeça, enquanto o pai ia contando causos de quando ainda era rapaz e andava a cavalo pelas bandas do Sanharó; as meninas e eu íamos em pé, agarrados à grade do caminhão, com a boca aberta, engolindo o vento que nos batia na cara.

O carro não nos deixava na porta de casa, por isso, meu pai levava uma bicicleta velha, a qual chamava de Calanga; descíamos todos na rodagem e, ali mesmo, nos separávamos: ele ia para a casa da sua mãe, a nossa Dindinha, enquanto nós íamos a casa de minha avó. Andávamos ainda um tempo até que atravessássemos a pinguela, um tronco jogado à esmo sobre as barrancas do Sanharó. Minha mãe atravessava em pé, equilibrando-se com as bolsas à tiracolo, enquanto as meninas e eu íamos nos arrastando, morrendo de medo de cair lá embaixo. Do outro lado, vovó nos esperava com um sorriso largo no rosto e as panelas chiando no fogão de lenha. Só então eu sabia que estávamos todos em férias.

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