sexta-feira, 3 de abril de 2015

SEXTA-FEIRA SANTA

Da sacada do seu apartamento, que fica bem de frente a igreja, Emanoel vê as pessoas chegando para a missa das nove. A burguesia dentro dos seus carros enormes, com as janelas fechadas, com medo dos “trombadinhas” que perambulam pela praça; os pobres com suas roupas domingueiras e suas caras alegres, sorridentes como sempre, talvez para disfarçar a aparente miséria social.

Emanoel quase nunca vai à igreja. Prefere ficar em casa, assistindo aos programas esportivos. Todos os dias faz as suas orações, silenciosamente, dentro do seu quarto escuro; lê a bíblia com frequência e, embora não saiba os versículos de cor, procura seguir a maioria dos seus preceitos. Acredita num poder maior, mas ainda não se acha capaz de defini-lo, de nomeá-lo. Por isso, prefere aquietar-se na sua insignificância.

A igreja, aos poucos, vai se enchendo. De onde está, como um privilegiado observador, Emanoel, consegue avistar todo o recinto. Seu apartamento fica bem rente à porta frontal, daí poder enamorar cada fiel, com suas ações e demonstrações. As camadas são bem distintas: nas primeiras fileiras, a burguesia se compraz com suas roupas finas e seus sapatos bem engraxados; mais atrás, as beatas tentam puxar uma oração, enquanto observam as mocinhas que conversam “destarameladas”; e, próximo à porta, em pé, com suas roupas domingueiras, os sapatos apertando os pés, homens e mulheres pedem milagres.

Do lado de fora, alguns meninos tentam arrombar um carro, enquanto outros puxam um “baseado” nas escadarias. Uma menininha, com um filho nos braços e outro puxado pela mão, levanta-se da balbúrdia em que se encontra, entra na igreja e começa a pedir alguma esmola para alimentar os rebentos. Um homem pega-a pela mão e conduz até a porta. A menina sai cabisbaixa, com os filhos chorando; devem estar com fome, com sede, com vergonha social.


O celebrante chega, a igreja está lotada de fieis. Durante todo o ano, poucos frequentam aquele ambiente; agora, impregnados pela paixão de Cristo, todos cantam, solenes, cânticos maravilhosos, dolorosos, cheios de fé e esperança. Da sua janela, Emanoel observar toda aquela cena e imagina se nada estará perdido.

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