Da
sacada do seu apartamento, que fica bem de frente a igreja, Emanoel vê as
pessoas chegando para a missa das nove. A burguesia dentro dos seus carros
enormes, com as janelas fechadas, com medo dos “trombadinhas” que perambulam
pela praça; os pobres com suas roupas domingueiras e suas caras alegres,
sorridentes como sempre, talvez para disfarçar a aparente miséria social.
Emanoel
quase nunca vai à igreja. Prefere ficar em casa, assistindo aos programas
esportivos. Todos os dias faz as suas orações, silenciosamente, dentro do seu
quarto escuro; lê a bíblia com frequência e, embora não saiba os versículos de
cor, procura seguir a maioria dos seus preceitos. Acredita num poder maior, mas
ainda não se acha capaz de defini-lo, de nomeá-lo. Por isso, prefere
aquietar-se na sua insignificância.
A
igreja, aos poucos, vai se enchendo. De onde está, como um privilegiado observador,
Emanoel, consegue avistar todo o recinto. Seu apartamento fica bem rente à
porta frontal, daí poder enamorar cada fiel, com suas ações e demonstrações. As
camadas são bem distintas: nas primeiras fileiras, a burguesia se compraz com
suas roupas finas e seus sapatos bem engraxados; mais atrás, as beatas tentam
puxar uma oração, enquanto observam as mocinhas que conversam “destarameladas”;
e, próximo à porta, em pé, com suas roupas domingueiras, os sapatos apertando
os pés, homens e mulheres pedem milagres.
Do
lado de fora, alguns meninos tentam arrombar um carro, enquanto outros puxam um
“baseado” nas escadarias. Uma menininha, com um filho nos braços e outro puxado
pela mão, levanta-se da balbúrdia em que se encontra, entra na igreja e começa
a pedir alguma esmola para alimentar os rebentos. Um homem pega-a pela mão e
conduz até a porta. A menina sai cabisbaixa, com os filhos chorando; devem
estar com fome, com sede, com vergonha social.
O
celebrante chega, a igreja está lotada de fieis. Durante todo o ano, poucos
frequentam aquele ambiente; agora, impregnados pela paixão de Cristo, todos
cantam, solenes, cânticos maravilhosos, dolorosos, cheios de fé e esperança. Da
sua janela, Emanoel observar toda aquela cena e imagina se nada estará perdido.
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