Durante
algum tempo, Caetano permaneceu na cidade de Santos, onde trabalhara como
estivador, no cais do porto; no entanto, não possuía documentos e isso o
poderia complicar. Tinha que seguir seus planos e ir trabalhar nas plantações
de café. Resolvera descer até Ribeirão Preto, e, de lá para Minas seria um
pulo.
Em
terras de um grande produtor de café, o homem se embrenhara no mundo do ouro
negro. Chegou timidamente, trazido por um colega dos bares de Santos, que se
dizia amigo do fazendeiro. Misturara-se aos outros trabalhadores e, logo, se
tornara líderes daqueles homens. Em sua maioria, aqueles eram homens e mulheres
fugidos dos países europeus, todos em guerra; e muitos, assim como ele, eram
italianos, sem nome, sem família, sem uma vida de verdade.
O
dono da fazenda, um tal de Lucas Andrade, logo se afeiçoara ao italiano, pois
havia visto naquele rapaz alto, forte e muito branco, uma exímia liderança e,
assim, melhor tê-lo ao seu lado do que contra si. Rapidamente, Caetano ficara
intimo da família, e transitava bem entre as ordens do patrão e as necessidades
dos empregados.
As
lembranças da Itália ainda tocavam o coração do italiano. Às vezes tinha
vontade de voltar para sua terra, enfrentar o Fascismo e libertar o seu povo;
mas sabia que não era tempo. Não haveria de suicidar-se; ficasse em terras
brasileiras e tudo estaria bem, menos a sua alma. Não obstante, uma mocinha de
olhos esverdeados também fazia tremer o coração de Caetano, e ela se chamava
Lúcia, a filha do patrão.
Lúcia
era meiga e inteligente. Ela dava aulas na escolinha da fazenda, pois havia
feito o magistério e sentia no peito uma imensa vontade de ensinar. Caetano não
estudava, mas, ficara encarregado de levar e trazê-la das aulas em segurança,
sob as ordens do patrão. E, enquanto iam e voltavam os dois pelo caminho,
conversando coisas vãs, ele esquecia-se da Itália e enamorava os negros cabelos
lisos da professorinha, seus lábios finos e desenhados, seu corpinho frágil e
seus seios pequenos e duros.
Um
dia, foram ambos à escola e não voltaram. Lucas usou todos os seus poderes de
coronel, ainda assim, não conseguira capturar o ladrão da sua filha. Ambos
estavam apaixonados e, sabedores da negativa do coronel, que nunca haveria de
aceitar o casamento da sua menina com um empregado, fugiram, de trem, para as
Minas Gerais, onde haveriam de construir uma família.
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