Em
2000 eu ainda jogava futebol. Quer dizer, corria atrás da bola e dava as minhas
caneladas. Como sempre, brincava de futebolista no Real Madri; sempre sonhando
em ser um grande jogador de futebol. Ficando mesmo nos sonhos. E, como passara
por todas as posições do campo, eu já fora o Taffarel, o Gutemberg, o Paulo
Roberto Prestes e, até mesmo, o Ronaldo Fenômeno. Depois, vieram a internet, a
rádio, os problemas, e o futebol ficou apenas nas lembranças.
O
Real treinava todos os dias, embora não tivesse um campo fixo. Às vezes íamos
até o campinho do menon; às vezes detrás do parque, ou, então, brincávamos no
Renovação, no Buriti ou no Diamante. Poucas eram as vezes em que jogávamos no
Cecorje, o único estádio da cidade, gramado e com alguma estrutura.
Nos finais
de semana íamos para os torneios, geralmente, nas roças e, na maioria das
vezes, na comunidade Inhaúma, onde, certa feita, um dos rivais, chamando-me a
um canto, veementemente, pediu:
-
Elismar, fala com os meninos para não virem mais aqui. Todo domingo é a mesma
coisa. E, além disso, já cansamos de ganhar de vocês. Vão jogar em outro lugar!
Não
teve jeito. Voltamos mais algumas vezes. Ganhamos alguns troféus, mas, quase
sempre saíamos goleados, e bêbados. O futebol não passava de uma mera desculpa
para as farras. Jogávamos, corríamos, gritávamos, mas, principalmente, vivíamos
a juventude através do futebol. E isto já nos bastava. Éramos felizes.
Certa
feita, fomos jogar um torneio em São João da lagoa. Partimos de Coração na
gaiola de um caminhão de transportar gado, com o cheiro de esterco tomando o
nosso nariz e nossos corpos. Havia chovido naquela manhã de domingo e isso
aumentava o odor que subia das tábuas soltas da carroceria.
Jogamos
quase todo o primeiro tempo debaixo de chuva, com o Lêga e o, saudoso,
Polveira, bicando todas as bolas de nossa área, enquanto eu, do meu cantinho na
lateral, assistia atenciosamente ao jogo, a espera de uma bola para disparar ao
ataque. E como sempre, corria, corria, corria, até perder a bola em linha de
fundo. Era um dos mais velozes do time, mas não conseguia correr e pensar. Ou
era um, ou outro.
A
primeira etapa já estava por acabar e a chuvinha já havia se misturado ao suor,
não sendo possível afirmar o que seria um ou outro. Até que o Fabrício, o nosso
meio-campo mais habilidoso, que não jogara naquela manhã, porque estava
ressacado da noite anterior, chegara até a beira do campo com uma garrafa de
Coca-Cola, transbordando de cachaça. Aquele fora o fim da partida, não sobrara
nenhum atleta em campo. Nem do nosso, nem do time adversário.

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