sábado, 21 de março de 2015

A MINHA ESPOSA DO ARNALDO

Hoje saí para dar uma volta pelas bandas do Sanharó. E tudo está como antes; menos o Arnaldo, que não está lá. A sua velha casa, pequenina e singela continua do mesmo jeito. Olhei por uma fresta da janela e vi que as coisas estão intocadas, tudo como da última vez que as vi. Apenas o quintal está cheio de mato, precisando de alguém que o corte, varra o cisco, alguém que molhe as plantas. Mas, em casa, nenhuma poeirinha encobre as coisas do Arnaldo.

Confesso que tive receio de ficar ali. Tudo aquilo, daquele jeito, me fez pensar que o amigo poderia estar por perto. Talvez tenha voltado e estivesse a me esperar, de tocaia, em algum daqueles pequizeiros. Acreditaria piamente nesta hipótese, se não tivesse a certeza da sua morte. Lembro-me de quando terminaram o serviço. Eu não quis presenciar, mas, logo me veio a informação: tudo estava consumado.

Antes de sair, já sobre o cavalo, passei os olhos novamente pelo lugar e imaginei a minha esposa do Arnaldo molhando as plantas, vestindo um vestidinho florido, com a alça caindo do ombro, deixando o seio quase à mostra, quase podendo enxergar o bico durinho e rosado. O Arnaldo não se apercebia dos dotes da mulher, era um homem de bem e via nela apenas as belezas interiores; sempre a vangloriava e dizia que ficariam velhinhos – os dois, assentados debaixo de algum pequizeiro, contando histórias deste tempo.

Senti saudades do Arnaldo e lembrei-me da sua minha esposa, que, a essa hora, depois de terminado os bolos e pães de queijo, devia estar assentada em algum banco, ou no quarto, conversando com Carminha. É verdade, Carminha voltara para casa, faz algum tempo. Sumira por uns meses, disse estar em casa de parentes. Já estive com ela, e continua do mesmo jeito que antes. O que me estranha é que agora anda sempre junto da minha esposa do Arnaldo, e, às vezes, até tomam banho juntas.

Um dia, enquanto observava as onze-horas que brotavam no pé das paredes, ouvi alguns sussurros vindos do banheiro. As duas tomavam banho juntas, e faziam barulhos e sorriam risinhos maliciosos. Me veio um ímpeto de olhar pela janela, mas, preferi ficar ali, sentado debaixo dela, ouvindo os sussurros e imaginando besteiras, me imaginando com elas. Creio que o Arnaldo não aprovaria tudo isto, mas, quando ele vier, se vier, haveremos de resolver a questão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário