Hoje
saí para dar uma volta pelas bandas do Sanharó. E tudo está como antes; menos o
Arnaldo, que não está lá. A sua velha casa, pequenina e singela continua do
mesmo jeito. Olhei por uma fresta da janela e vi que as coisas estão intocadas,
tudo como da última vez que as vi. Apenas o quintal está cheio de mato, precisando
de alguém que o corte, varra o cisco, alguém que molhe as plantas. Mas, em
casa, nenhuma poeirinha encobre as coisas do Arnaldo.
Confesso
que tive receio de ficar ali. Tudo aquilo, daquele jeito, me fez pensar que o
amigo poderia estar por perto. Talvez tenha voltado e estivesse a me esperar,
de tocaia, em algum daqueles pequizeiros. Acreditaria piamente nesta hipótese,
se não tivesse a certeza da sua morte. Lembro-me de quando terminaram o
serviço. Eu não quis presenciar, mas, logo me veio a informação: tudo estava
consumado.
Antes
de sair, já sobre o cavalo, passei os olhos novamente pelo lugar e imaginei a
minha esposa do Arnaldo molhando as plantas, vestindo um vestidinho florido,
com a alça caindo do ombro, deixando o seio quase à mostra, quase podendo
enxergar o bico durinho e rosado. O Arnaldo não se apercebia dos dotes da
mulher, era um homem de bem e via nela apenas as belezas interiores; sempre a
vangloriava e dizia que ficariam velhinhos – os dois, assentados debaixo de
algum pequizeiro, contando histórias deste tempo.
Senti
saudades do Arnaldo e lembrei-me da sua minha esposa, que, a essa hora, depois
de terminado os bolos e pães de queijo, devia estar assentada em algum banco,
ou no quarto, conversando com Carminha. É verdade, Carminha voltara para casa,
faz algum tempo. Sumira por uns meses, disse estar em casa de parentes. Já
estive com ela, e continua do mesmo jeito que antes. O que me estranha é que
agora anda sempre junto da minha esposa do Arnaldo, e, às vezes, até tomam
banho juntas.
Um dia, enquanto
observava as onze-horas que brotavam no pé das paredes, ouvi alguns sussurros
vindos do banheiro. As duas tomavam banho juntas, e faziam barulhos e sorriam
risinhos maliciosos. Me veio um ímpeto de olhar pela janela, mas, preferi ficar
ali, sentado debaixo dela, ouvindo os sussurros e imaginando besteiras, me
imaginando com elas. Creio que o Arnaldo não aprovaria tudo isto, mas, quando
ele vier, se vier, haveremos de resolver a questão.
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