Fugindo
à regra, sou um escritor de cidade interiorana, longe das grandes editoras e
dos incontáveis acontecimentos. São João da lagoa talvez não possua ainda dez
mil habitantes, e, comumente, durante a noite, ainda ouço cavalos correndo
pelas ruas, ou algumas vacas mugindo nalguma fazenda próxima. Como já disse:
sou um escritor de cidade interiorana. E, para completar, moro bem de frente a
um boteco.
Quase
que diariamente, durante a noite, fico deitado até altas horas, ainda acordado,
escutando as conversas que transam no boteco. São homens e mulheres que
conversam em alto volume, ao som de Amado Batista, Edmundo Gaúcho, Sandro Lúcio
ou Pablo. Invariavelmente, as caixas do velho som tocam um destes cantores.
Entre
as beberagens de cerveja e pinga, misturando-se às tacadas de sinuca, dali saem
assuntos da vida alheia, receitas de benzição,
arrotos de valentia, expurgos de covardia. Tomados pelo álcool, homens e
mulheres mostram as suas coragens e seus medos mais recônditos. E isso tudo é o
que ouço incansavelmente. Até que o sono me chegue e durmo sonhando Crônicas e
Aventuras.
Talvez
Gilda ainda apareça no boteco. Mas, confesso, ainda não consegui encontrá-la, não
sei se casara, se fora para alguma roça ou permanecera na cidade. Talvez ainda
esteja solteira, escondida em algum recanto isolado, de onde, todas as noites,
pelo telefone, enquanto observa as estrelas e se imagina numa vida de grã-fina,
escute as velhas promessas do mesmo bêbado, com sua bicicleta roubada e seus
sonhos de amor.
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