Sejamos
realistas, o futebol tem se transformado num acontecimento sem graça. Da minha
parte, tenho preferido assistir aos programas esportivos a ficar por mais de
noventa minutos vendo uma pelada futebolística. Já não temos mais os incontáveis
craques das décadas de 90 e 2000 – e olhe que já não eram tantos como nas décadas
anteriores. O futebol tem se transformado numa rede de negociações com valores
astronômicos, deixando de lado o principal, a essência do futebol: o
espetáculo.
Comecei
a gostar de futebol, com algum entendimento, a partir de meados de 90. Desde
então, convivi, ainda que televisivamente, ou pelas ondas do rádio, com
jogadores do quilate de Romário, Renato Gaúcho, Ronaldo (Gaúcho e Fenômeno),
Pedrinho, Juninho Pernambucano, Palhinha, Edmundo, Marques, e tantos outros,
que faziam o futebol ser uma arte de verdade.
Nossos
estádios não eram de primeiro mundo. Os campos eram verdadeiros pastos, com o
alambrado a ponto de despencar sobre os atletas, com a torcida ameaçando levá-lo
à baixo, gritando palavras de ordem, atazanando os ouvidos adversários
(Lembro-me de um jogo na Arena da Baixada, em Curitiba, num jogo entre
Palmeiras e Atlético Paranaense, com a torcida cantando durante os noventa
minutos. Isto devia ser nos anos 90; o Palmeiras com um timaço e o Atlético
recém-chegado da série B. Um jogaço, com a narração do saudoso Luciano do vale).
Nossos
jogadores não eram tão grandes. O Romário entortava os zagueiros na área; o
Pedrinho fazia loucuras com a bola e o Ramonzinho, o Cambalhota, colocava a
bola onde bem desejasse, assim como fazia o Marcelinho Carioca. A habilidade
prevalecia sobre a força física, o jogo era mais cadenciado, principalmente no
Rio de Janeiro, onde ficavam os grandes craques. A verdade é que cada estado
tinha sua escola bem definida: No Rio, um jogo bonito, clássico, cheio de
malemolência; em São Paulo, jogo mais rápido, mais tático e responsável; no Sul
do país havia um futebol raçudo, com jogadores durões e sem qualquer piedade.
Hoje
não existe mais um futebol verdadeiramente brasileiro. Naquela época exportávamos
não apenas jogadores, mas, também o futebol brasileiro. Agora, importamos o
estilo que os europeus utilizavam em 90, em 2000. Nossos atletas são verdadeiros
guarda-roupas, com raros lampejos técnicos. Prevalece o jogo tático, corrido,
treinado, com raros espaços de improviso e fantasia. Nossos técnicos vão
aprender futebol na Europa, enquanto nós esquecemos a nossa arte mais nobre.
Ainda
ontem, saí a procura de um campo de várzea, onde houvesse crianças descalças
correndo atrás de alguma bola velha. Não encontrei. Não existem mais os velhos
campinhos. Deve ter morrido com o advento da Lei Pelé, das novas táticas, das
novas Arenas, com a invenção do novo futebol. Em breve, veremos enormes robôs correndo atrás
de uma minúscula pelota, num belo tapete verde.
Elismar, parabéns pela crônica.
ResponderExcluirRealmente nosso futebol brasileiro está em uma decadência e parece sem rumo.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau
Brilhante texto. Concordo com o que disse, o nosso futebol está morrendo...
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