segunda-feira, 9 de março de 2015

A MORTE DO NOSSO FUTEBOL

Sejamos realistas, o futebol tem se transformado num acontecimento sem graça. Da minha parte, tenho preferido assistir aos programas esportivos a ficar por mais de noventa minutos vendo uma pelada futebolística. Já não temos mais os incontáveis craques das décadas de 90 e 2000 – e olhe que já não eram tantos como nas décadas anteriores. O futebol tem se transformado numa rede de negociações com valores astronômicos, deixando de lado o principal, a essência do futebol: o espetáculo.

Comecei a gostar de futebol, com algum entendimento, a partir de meados de 90. Desde então, convivi, ainda que televisivamente, ou pelas ondas do rádio, com jogadores do quilate de Romário, Renato Gaúcho, Ronaldo (Gaúcho e Fenômeno), Pedrinho, Juninho Pernambucano, Palhinha, Edmundo, Marques, e tantos outros, que faziam o futebol ser uma arte de verdade.

Nossos estádios não eram de primeiro mundo. Os campos eram verdadeiros pastos, com o alambrado a ponto de despencar sobre os atletas, com a torcida ameaçando levá-lo à baixo, gritando palavras de ordem, atazanando os ouvidos adversários (Lembro-me de um jogo na Arena da Baixada, em Curitiba, num jogo entre Palmeiras e Atlético Paranaense, com a torcida cantando durante os noventa minutos. Isto devia ser nos anos 90; o Palmeiras com um timaço e o Atlético recém-chegado da série B. Um jogaço, com a narração do saudoso Luciano do vale).  

Nossos jogadores não eram tão grandes. O Romário entortava os zagueiros na área; o Pedrinho fazia loucuras com a bola e o Ramonzinho, o Cambalhota, colocava a bola onde bem desejasse, assim como fazia o Marcelinho Carioca. A habilidade prevalecia sobre a força física, o jogo era mais cadenciado, principalmente no Rio de Janeiro, onde ficavam os grandes craques. A verdade é que cada estado tinha sua escola bem definida: No Rio, um jogo bonito, clássico, cheio de malemolência; em São Paulo, jogo mais rápido, mais tático e responsável; no Sul do país havia um futebol raçudo, com jogadores durões e sem qualquer piedade.

Hoje não existe mais um futebol verdadeiramente brasileiro. Naquela época exportávamos não apenas jogadores, mas, também o futebol brasileiro. Agora, importamos o estilo que os europeus utilizavam em 90, em 2000. Nossos atletas são verdadeiros guarda-roupas, com raros lampejos técnicos. Prevalece o jogo tático, corrido, treinado, com raros espaços de improviso e fantasia. Nossos técnicos vão aprender futebol na Europa, enquanto nós esquecemos a nossa arte mais nobre.


Ainda ontem, saí a procura de um campo de várzea, onde houvesse crianças descalças correndo atrás de alguma bola velha. Não encontrei. Não existem mais os velhos campinhos. Deve ter morrido com o advento da Lei Pelé, das novas táticas, das novas Arenas, com a invenção do novo futebol.  Em breve, veremos enormes robôs correndo atrás de uma minúscula pelota, num belo tapete verde. 

2 comentários:

  1. Elismar, parabéns pela crônica.
    Realmente nosso futebol brasileiro está em uma decadência e parece sem rumo.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

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  2. Brilhante texto. Concordo com o que disse, o nosso futebol está morrendo...

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