10% inspiração e 90%
transpiração, assim se resume a vida de um escritor. Assentado em seu cantinho
do sofá, com o notebook descansando sobre as pernas, procura por alguma ideia
que lhe valham os clicks. Não adianta, as ideias chegam, todas de uma vez, e
não se deixam organizar. Lembra-se de fatos antigos, de coisas passadas, de
acontecimentos futuros, de quando seria rico e teria um belo iate para navegar
em alto-mar, dos padecimentos pelos quais passara
no deserto do Saara num futuro distante...
Talvez devesse falar sobre
coisas vãs; quem sabe uma moça que subia
por uma rua de terra, carregando uns livros na mão, vestindo uma saia muito
curta, deixando os joelhos à mostra, com os peitinhos duros, quase perfurando o
fino tecido da blusa... Se não, poderia narrar a história do grande caçador de
borboletas, que um dia voou agarrada nas asas de uma das suas presas, chegando
ao mundo encantado das flores, onde passaria o resto da vida fugindo das lagartas
de fogo, escondendo-se nos casulos quentinhos, comendo larvas assadas em fogo
brando...
De vez em quando tomava mais
um gole de café. Esquecera-se de comprar o vinho, dizem que vinho aguça a imaginação.
Isto não era o seu problema: as ideias faziam um burburinho em sua mente; todas
conversando ao mesmo tempo, uma mocinha beijando o donzelo bem no meio das
crianças sapecas do orfanato em chamas; o gato correndo atrás do cachorro, com
um enorme rojão entre as patas, o estopim em ponto de estourar o mundo.
Faltava-lhe uma secretária no cérebro, alguém que lhe organizasse as ideias,
para que as pusesse no papel.
O melhor talvez fosse dar um
tempo; ir até a venda, comprar um vinho e esperar pelo momento certo. Mas
chovia lá fora, e não era precipitações pluviométricas, eram letrinhas
desordenadas a caírem ao chão subitamente, para, em seguida, escorrerem
lentamente por entre os sulcos da terra sertaneja. E veio-lhe a ideia de
escrever um poema, talvez um soneto; quem sabe uma Ode, uma Elegia, um Haicai.
Poderia falar das flores, dos sonhos, dos amores, da vida e da morte...
E a ideia da poesia começou
a coçar-lhe os dedos, mas, desgraçadamente, as palavras não vinham.
Assentara-se à beira da janela e começara a enamorar-se das plantas, dos
pássaros, das nuvens que voavam lentamente pelos céus, como que a procura de um
lugar pacato onde pudessem precipitar, bailando por entre o vento e o sol,
formando o mais belo arco-íris do qual se teriam notícias.
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