segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

SAUDADES DO ARNALDO

AO AMIGO RENATO


As lembranças são como crianças pirracentas e, por isso, sempre teimam em ficar junto de nós, por mais que não a queiramos ao nosso lado. Pior; elas, as lembranças, entranham-se em nossa alma e não saem nem com reza brava. E a única maneira de afastá-las é voltando ao tempo pretérito, ou, quando muito, ao lugar onde se hospedam as mais lúgubres recordações.

As saudades do Arnaldo são profundas, e ainda me cortam o peito, feito o facão mais afiado. Sinto que a minha sua esposa também sente saudades do amigo. Às vezes, enquanto ela prepara os pães de queijo para o café, ou assa o pernil de porco para o almoço, noto que uma lágrima lhe desce dos olhos, como que em prantos pelo falecido.
Nunca toco no nome do finado amigo com a minha sua esposa, mas, a coceira da curiosidade me vem a mente, e fico a imaginá-los em noites de casal. Arnaldo sempre fora pudico e não consigo imaginá-lo em fantasias ou descobertas, assim como fazemos a sua esposa e eu. Nada tenho a reclamar, mas, dói-me ver a lágrima que silenciosamente cai dos seus olhos.

Ainda ontem fui à velha casa do amigo, talvez em busca de alguma notícia sua.  Talvez espere pelo dia em que ele haverá de voltar, dar-me um abraço fraterno e, juntos, tomarmos um cafezinho quente, preparado pela sua minha esposa. Assim como ela fazia quando eu ia a sua casa, em tardes de sol se pondo, quando ficávamos conversando, a esposa do amigo e eu, enquanto ele não chegava da labuta.

O Arnaldo era, de fato, um bom amigo, sempre simples e austero. Prezava pelas coisas corretas e alinhavadas. Acho que fiz um favor ao meu amigo. Não estaria ele satisfeito neste mundo de loucuras e devaneios, com tantos políticos sujos e tantas sujeiras por debaixo do tapete. A minha sua esposa não entenderia, mas, não queria somente ela. Queria libertá-lo deste mundo desonesto e sem qualquer salvação.


Chegaram-me as notícias da sua morte, mas, não sei... Alguma coisa me diz que o Arnaldo ainda vive. Talvez, por isso, eu ainda o espere, todos os dias, com uma grande alegria no peito e a arma do lado. A minha sua esposa talvez não acredite mais na sua volta; mas, ainda me restam pistas – e esperanças – de que, um dia, possamos bebericar, como amigos, o café que ela faz.

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