AO AMIGO RENATO
As
lembranças são como crianças pirracentas e, por isso, sempre teimam em ficar
junto de nós, por mais que não a queiramos ao nosso lado. Pior; elas, as
lembranças, entranham-se em nossa alma e não saem nem com reza brava. E a única
maneira de afastá-las é voltando ao tempo pretérito, ou, quando muito, ao lugar
onde se hospedam as mais lúgubres recordações.
As
saudades do Arnaldo são profundas, e ainda me cortam o peito, feito o facão
mais afiado. Sinto que a minha sua esposa também sente saudades do amigo. Às vezes,
enquanto ela prepara os pães de queijo para o café, ou assa o pernil de porco
para o almoço, noto que uma lágrima lhe desce dos olhos, como que em prantos
pelo falecido.
Nunca
toco no nome do finado amigo com a minha sua esposa, mas, a coceira da
curiosidade me vem a mente, e fico a imaginá-los em noites de casal. Arnaldo
sempre fora pudico e não consigo imaginá-lo em fantasias ou descobertas, assim
como fazemos a sua esposa e eu. Nada tenho a reclamar, mas, dói-me ver a
lágrima que silenciosamente cai dos seus olhos.
Ainda
ontem fui à velha casa do amigo, talvez em busca de alguma notícia sua. Talvez espere pelo dia em que ele haverá de
voltar, dar-me um abraço fraterno e, juntos, tomarmos um cafezinho quente,
preparado pela sua minha esposa. Assim como ela fazia quando eu ia a sua casa,
em tardes de sol se pondo, quando ficávamos conversando, a esposa do amigo e eu,
enquanto ele não chegava da labuta.
O
Arnaldo era, de fato, um bom amigo, sempre simples e austero. Prezava pelas
coisas corretas e alinhavadas. Acho que fiz um favor ao meu amigo. Não estaria
ele satisfeito neste mundo de loucuras e devaneios, com tantos políticos sujos
e tantas sujeiras por debaixo do tapete. A minha sua esposa não entenderia,
mas, não queria somente ela. Queria libertá-lo deste mundo desonesto e sem
qualquer salvação.
Chegaram-me
as notícias da sua morte, mas, não sei... Alguma coisa me diz que o Arnaldo
ainda vive. Talvez, por isso, eu ainda o espere, todos os dias, com uma grande
alegria no peito e a arma do lado. A minha sua esposa talvez não acredite mais
na sua volta; mas, ainda me restam pistas – e esperanças – de que, um dia, possamos
bebericar, como amigos, o café que ela faz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário