Enquanto
a água da cachoeira banhava-lhe a cabeça, ouvia o cantar dos pássaros que
pousavam nos galhos das árvores próximas, e pensava na vida, em tudo o que
fizera e sobre o que se tornaria dali em diante. Já não poderia mais voltar, o correto
seria partir; mas, agora, com cuidado, para que não o vissem, não o pegassem,
não o matassem.
Enquanto
saía do banho, pensara ouvir algum barulho no mato. Certamente, não seriam
pisadas de animais. Poderia ser os homens que o vieram buscar. Aquietara-se por
um instante e observou a mata em seu redor, procurando escutar o silêncio das
folhas e o barulho quase mudo do vento àquela hora. O barulho também havia
silenciado, e isto o deixava em pânico, com a sensação de que sempre o
perseguiam.
Vestiu-se
rapidamente e saiu em direção ao rio; atravessara-o pela parte mais rasa, até
que chegasse à outra margem. Com passos céleres procurou caminhar sem olhar
para trás. Tinha medo de que alguém realmente o seguisse. Pior, tinha a
estranha sensação de que, a qualquer momento, pegariam-no.
O
barulho atrás de si parecia aumentar. Agora eram passos fortes e rápidos, como
se a pessoa, ou as pessoas, atrás de si, estivessem decididas a pegá-lo de vez.
Se o pegassem, haveriam de prendê-lo para sempre; mais que isso, certamente o
matariam; afinal, um crime como aquele era imperdoável.
Apressou
ainda mais o seu trote. Agora corria, o suor descendo-lhe pelo rosto,
arrebentando no peito exposto, com a camisa arregaçada, já toda molhada e suja.
Não olhava para trás; sentia o medo tomar conta da sua alma, as pernas tremiam,
coisas passavam pela sua cabeça. Mesmo ela não haveria de perdoá-lo; não depois
do que fizera; ela não haveria de perdoar.
Parecia
ter ouvido um grito. Era um grito rouco, profundo, incompreensível. Os passos
agora eram alucinantes, como se corressem ferozmente à sua cola. Já sentia a
mão do seu algoz tocando-lhe o ombro, tentava se desvencilhar, aumentar o
passo; sentia as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, juntando-se ao suor,
voando livremente com o vento. Já não sentia mais o seu corpo. Apenas corria,
alucinado, desesperado.
Já
estava quase desistindo, quando vira um abismo a sua frente. Era a sua
derradeira chance. Depois disso haveria apenas a liberdade. A mão já o agarrava
pelo pescoço e tentava derrubá-lo ao chão. Deu o seu último átimo de força e
pulou, antes que o pudessem segurar. Agora estava livre, e voava pelos ares.
Que bom que voltou a escrever mestre. Nossa literatura agradece!!!
ResponderExcluirObrigado pelas suas palavras, amigo.
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