Não
há quem não conheça o Joaquinzão, com seu andar encurvado, seu chapéu, e o
eterno embornal do lado. Arrastando a perna, vai andando por toda a cidade,
olhando as meninas, cumprimentando os homens, espantando os cachorros, com seu
velho estilingue. Todo mundo gosta do Quinzão, menos os cachorros e os meninos
serelepes, pois estes não gostam de ninguém e fazem troça com tudo.
O
dia começa e Joaquinzão já está de pé. Prepara o café, liga o radinho velho e,
sentado sobre o fogão de lenha, fica a observar o tempo, ainda frio, lá fora.
Ele sabe que vai esquentar. Não conhece as letras e não tem folhinhas em casa.
Mas sabe que é mês de maio, já quase chegando a vaquejada: faz frio de manhã; o
sol esquenta à tarde; e o frio volta de noite.
Joaquinzão
volta pra cama. O radinho ligado na cozinha; Jota Pinheiro tocando uma moda de
viola. As lembranças povoam a mente do solitário homenzinho. Lembra-se da mãe,
quando ainda era criança, pelos lados do Sanharó; dos irmãos que já se foram,
todos cedo de mais; das vaquejadas em Coração, quando ia com Cirilão, descia na
casa da irmã e rodava pela cidade.
Joaquim
queria ir à vaquejada; mas, melhor ficar em casa. Ele sabe, já não é mais o
rapaz de outros tempos. O radinho toca uma música antiga, tranquila, que o
embala a mais um sono. Calixto dorme na casa ao lado, roncando alto, sonhando
pouco. Apenas dorme, como se apenas isso lhe bastasse. Quinzão não pensa assim,
queria viver a vida, sair pelo mundo, desvendar os horizontes. Mas o seu tempo
passou; já não é mais um rapaz.
Suas
pálpebras pesam. Tenta se manter acordado, aumenta o volume do radinho. Não
adianta, o sono é mais forte e toma o seu corpo. Alguém lhe toca o ombro.
Levanta-se sobressaltado. É Calixto com os seus remédios matinais; são tantos,
que nem sabe mais para quê tomá-los. Toma-os apenas, como se fosse um eterno
ritual.
Calixto
volta à sua casa. Antes, desliga o radinho que descansa a um canto do velho e
sujo fogão à lenha. Tio Joaquim adormece novamente; agora, sonhando com o
Sanharó cheio e vovó cantando uma linda canção de ninar, enquanto, numa
mangueira enorme, alguns pássaros cantam em sinfonia, como se acompanhassem a
velha mãe.
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